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(para aqueles que congelam)*

Você é uma criatura mítica, eu sou o inseto que te devora. Você é o rei-deus, eu sou o escravo morto e esquecido. Você ordena, eu sou esmagado. Eu sabia que cedo ou tarde você voltaria das terras distantes, eu só não estava preparado porque contigo vivo um eterno estado de suspensão. O teu olhar negro atravessou minha carne translúcida e revelou meu coração sôfrego. O tiro certeiro que foi dado, muito embora você não estivesse ciente dos efeitos destruidores, resultou na minha paralisia completa. Eu abria a boca, emitia sons, mas de lá não saía nada. Eu movia o meu braço, mexia as pernas, sem sair do lugar. Desde então estou com um choro guardado na altura do peito. Choro de vergonha e, nota constante, arrependimento. Lamento que eu tenha devotado tanta atenção em você, que você tenha se empoderado tanto, acabei me tornando um secundário na minha própria vida. Eu lamento. De coração, ou do pouco que resta dele. A paralisia é tanta que sequer fui capaz de te escrever, porque este é meu refúgio covarde, quer dizer, costumava ser. Agora estou congelado. E é inverno.

*(mas vai passar, e já estou derretendo)

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céu, contos e relatos

Balanço

Você vai embora mas continua aqui. Passou sucintamente na minha vida mas deixou mais uma rachadura na minha já frágil fundação. Quando penso na vida imagino sempre uma praia à noite, mergulhada num breu pesado e intolerável, e eu perto do mar com uma pequena lanterna apontando para o horizonte. Consigo ver que o mar acaba, mas não sei o que acontece até lá. Olho em volta e vejo apenas areia, ficando mais uma vez no mesmo lugar. O mar bate em mim onda após onda e acabo percebendo que cada vez fica mais difícil sair. Lentamente vou afundando, acomodo meus membros inferiores na areia depois de já ser tarde demais. Te conhecer foi uma daquelas ocasiões onde achei que poderia me desvencilhar disso tudo. Você iria me guiar. Teve um segundo fugaz em que você pegou minha mão e fez que ia me puxar. Logo depois eu vi, eu sei que estava escuro, mas eu vi a hesitação nos teus olhos. Eu prendo a respiração como se tentasse evitar o inevitável que é assistir a tua partida silenciosa escuridão adentro. Atônito, pergunto aos céus se eles tem a verdade sobre mim. O apaixonante céu estrelado me lembra que eu sou de libra, e nunca entendi qual o significado disso. Vênus brilha no céu como as outras estrelas, ouvi dizer que é o meu planeta regente, eu queria odiar isso tudo mas eu não consigo, o que faço é amar cada vez mais, me apaixonar perdidamente por esses quase-desconhecidos que eu insisto em deixar entrar na minha vida, eu fico tão machucado, você sabe, é uma dor que irradia de dentro pra fora me deixando atordoado e no fim só resta o amor que eu sinto. Eu ainda sou feito de carne e osso, ainda existo. Até a dor eu estou amando agora. Talvez essa seja a sina do libriano, não só a escravidão ao jogo da sedução, a pouca habilidade em tomar decisões e o inoportuno senso de justiça; o fardo do amor excessivo está impresso na minha alma e é uma coisa maravilhosa.

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música

Sobre música, ou a falta dela

(escrevi esse texto há muito tempo. só agora que ele me desceu)

Uma canção noturna. Consegue ouvir? Repentistas das memórias, do que ficou, sobrou plantado na Terra. O que era samba agora vira bossa, violão e alegria. A música não cria música: ela cria espaço. O baixo faz a terraplanagem, o violão faz crescer a grama, o piano deixa tudo mais elegante. Essa voz é feminina, daquelas que reverberam essa coisa frágil que a gente chama de espírito. Bossa vira tango. Passeio pelas calles, despreocupado, sem esquecer que não quero mais lembrar. O encontro com uma bela mulher e a dança surge espontaneamente, passinho pra lá e pra cá. Tango virou fado. Que dor nos olhos, meu deus. Estou quase cego, quase, só vejo uma chama muito forte. Queimaram alguma coisa, foi um auto da fé. Sinto um cheiro visceral, coisa inédita na vida, mas que eu sabia que era de internos. O corpo está aberto, escancarado, e isso me fez enxergar novamente. Meu cérebro frágil não consegue escapar dessas cenas, agora isso ficou marcado também. No alto de um terraço uma soprano canta ave maria, rogai por nós… Fado vira blues. Como um tiro, abro a porta do chevrolet antigo e não quero mais nada. Só eu e a cervejinha. Um menino pergunta se eu ainda tenho esperança na vida. É claro que tenho, se não tivesse já teria me matado. Ouvir essas palavras saindo da minha boca, que surpresa. O bar é miserável, mais ainda do que eu. Pego um violão e faço minha própria música, e agora blues vira jazz. Cada nota é uma memória, e me faz lembrar de você deitado no chão, não querendo nada da vida, querendo tudo da vida. Uma vez eu deitei junto e imaginei que ia conseguir capturar toda aquela sabedoria. Mas eu preciso construir; para você, as coisas já são. E assim a vida foi, um dia ela era, noutro ela continuava sendo.

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orações

(para quem finge que acredita)

Há quem seja levado a acreditar nos finais felizes. Apago luz e inicio o meu próprio ritual. Já deitado na cama, a luz fraquejante da única vela no altar ilumina as margaridas em volta de mim. Tudo foi cuidadosamente pensado para marcar o não-sei-o-quê. É meu funeral, mas vou continuar vivendo. É meu casamento, e vou continuar sozinho. É o meu debute, e ainda sou uma criança. Os ritos do homem canalizam o amor: quando some, quando é celebrado e quando desabrocha. Talvez seja um afã inútil de realinhar meus órgãos internos. Um médico veio e disse que meu coração era abrasivo. Ora, que não me venhas com velhas novidades. Depois de tanto construir meu reino sagrado de amor, de erguer cada tijolo sofrido mesmo sem saber o que estava fazendo, de fazer uma morada quente para você, tudo desmorona e agora só os deuses podem me ajudar. Eu não me engano, entretanto: a culpa é minha. Esse meu coração vermelho escuro, pontiagudo e traiçoeiro! É um caldeirão de excessos, e qualquer um que entra em contato com ele sabe dos efeitos destrutivos. Você que fugiu, que já sumiu tantas vezes, que chorou e desistiu, meu nego, não te culpo pois eu mesmo sou incapaz de viver com esse coração. É meu, mas me é alheio. Que fique como ensinamento: eu nunca deveria ter confiado em algo que me envenena. De você vou guardar o olhar sempre refratado. Sei que você tem medo de não suportar o compromisso de arcar com as demandas dum coração tão exigente e insaciável. Apesar do hermetismo sedutor, fui capaz de decifrar um pouco dos teus desejos. Quando coloquei a mão no teu peito consegui sentir um coração hesitante e carente. A combinação é disruptiva, então eu compreendo a decisão de partir. Vá, e que vá com deus. Agora já estou na última fase do ritual, um frio na barriga e abro os olhos para ver uma caixa que se materializou no altar. Dentro dela estão todas as respostas que tanto procuro. Talvez minhas preces tenham sido atendidas! Abro a caixa correndo e ofegante, pouco me surpreende encontrar apenas um fino pedaço de papel onde se lê: não há final feliz. Sou inundado pelas lágrimas quando lembro que faço isso todas as noites, e agora deito na cama das margaridas que, perfumadas, embalam o sono dos sonhadores.

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morri

bleeding flower quilt (detail) Eu não sei aproveitar a noite como as pessoas normais. Não consigo ter uma noite tranquila sem que eu volte para casa debulhado em lágrimas, escorregando em lembranças, lambanças da vida, confusão resoluta que me descreve bem. Em geral as pessoas tem um costume, até certo ponto louvável, de manter as relações na superficialidade. Não é o meu caso. Sou transparente demais para sustentar tal posição. Acabo dilacerando as entranhas quando tento ser quem não se é. Não tão melhor, se procuro obedecer os deuses da paixão, bem, a sarjeta é quase inquestionável. Na verdade é minha velha conhecida. O que me surpreendeu, hoje, foi que você quis dividir esse espaço comigo. E eu evitei, deus sabe como eu evitei abrir a boca e mostrar o quão errado eu sou, cada vez mais me convenço que deveria estar numa instituição psiquiátrica. Você permaneceu lá, ouviu minhas porcarias e aguentou meu comportamento temperamental. É isso, entenda, que encosta perto do meu coração, que faz vibrar as cordas da minha alma, que remexe essa estátua de amor que carrego comigo. Peço uns instantes de trégua, faço sinal para você se afastar. Você me olha e nós dois temos lágrimas prestes a escorrer. Tudo começa a fazer sentido: estou convencido que hoje, pelo menos por alguns instantes, nosso lugar figurou como um dos mais felizes da terra. Mesmo que tenha sido por alguns segundos! Quem estava em volta percebeu meu brilho, que eu emanava algo de bom, sincero. No meu peito tem uma flor vermelha. Pego minha pele do pescoço e arranco puxando para baixo, deixando meu corpo completamente exposto: essa flor desabrochara. As pétalas se esticaram de dentro pra fora num movimento sincronizado, de tal forma que o interior fica visível aos olhos de todos em volta. Você, que estava ao meu lado até então, fica incrédulo. É muito para você, ainda mais para mim. Daquela flor escorre uma lágrima com cheiro de ferro, é tudo que tenho a oferecer. Estou perdendo as forças e deito no chão acocorado, pedindo por clemência. Mas o que eu quero mesmo é carinho. Uma expectadora desespera-se, grita pedindo por socorro. É tarde, nada mais adianta. Meu destino é, inevitavelmente, agonizar enquanto te vejo partir. Serenamente você decide ir embora, e isso já não faz mais diferença, afinal, estou sentenciado. É questão de tempo até meu coração desistir e a flor murchar. É como um pequeno resumo de tudo que vivi até hoje, é a distância que só faz crescer todas as outras distâncias. São universos intransponíveis. Mas saiba, meu bem, que estou grato pelo prestígio de ter estado ao teu lado, e eu morri, sim: de amores.

(Artista: Anne Clinton)

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contos e relatos

(para quem escreve e se repete)

Às 16 horas e 30 minutos pego o voo para não sei onde. Esqueci o nome daquele lugar, esqueci o seu rosto, esqueci tudo. O avião balança mas quem balança mesmo sou eu, um eterno desequilibrado, mais temperamental que o tempo lá fora. Já na cidade vou andando pela rua, os prédios gigantescos crescem do céu para o chão. Aquilo me esmaga, viro unidimensional e ninguém parece notar. Em todos os rostos vejo a tua expressão, mesmo que já tenha esquecido dela também. Mas eu vejo, sei que vejo. Ainda está lá, como fantasma, sombra, repetição sem razão. Teu rosto virou uma coisa inominada: pode ser qualquer coisa. É uma ideia que vira um ser e ele se materializa fazendo lembrar todos esses contratempos que temos na vida. Uma figura que, ao não dizer nada, toma todas as formas possíveis. Paro de andar pois acabo de ser surpreendido por uma casinha bege, tímida, no meio dos edifícios exagerados. Cada um deles é uma ode ao excesso, ao extermínio do mundo. Essa casinha bege, ordinária, comum, ela é tão óbvia, da mesma forma como é obvio pensar por que me identifico com ela, é tão evidente que não precisa sequer ser dito. Odeio ser óbvio, é por isso que eu fujo da cor bege. Porém, ela está incrustada na minha pele, brilhando uma luz morta que sinaliza o caminho já passado e já explorado: esqueci tanto que vou lembrar eternamente.

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orações

(para quem escreve e se recompõe)

Como quem está amaldiçoado. Não sei se é coisa dessa vida ou de algum espírito passado, outra forma de vida que habitava a Terra e que continha minha alma. Se é magia negra ou maldição dos índios, os povos antigos, mestres na arte da feitiçaria e dos caprichos. Tem um peso nas minhas costas, será que estou carregando a maldição? Será que ela é capaz de me deformar? Já deformou meu coração. Não consigo mais amar, escrever, existir, sentir, apagou aquela chama primordial da vida e meus olhos ficaram vidrados no nada. Enxergo tudo através da cor azul, é só monotonia, lentidão, um desespero quieto, contido. Nem de gritar sou capaz. Meus compromissos se transformaram em desculpas para passar o tempo. Tal como o relógio que se derrete, me arrasto pelas ruas, fugindo de algum buraco negro, lutando pela vida mas sem fazer esforço. Estou vestido de uma tristeza extenuante. Você vem? Você vai apagar minhas feridas?

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