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(para aqueles que se enchem do passado)

Um dia só, mais três, chove no quinto e é provável que nada mais reste depois. Eu vi uma cena magnífica, mas você nunca entenderia. Vi o sol nascer por detrás de montanhas muito altas, andei por praças que jamais existiram, tomei vinho à beira de um lago congelado, estive em lugares assombrados, enfim, locais que desafiam a resiliência da minha memória. A matéria que sou hoje, essas linhas embaraçosas que limitam a carne que me compõe, essa matéria era outra em outro tempo. E assim eu era outro também. É uma sensação muito estranha pensar naqueles tempos e ver que nada daquilo faz sentido hoje em dia. Eu encontrei um amigo esses dias e sequer conseguia lembrar porque nos deixamos de falar, e nós conversamos, e senti pequenas pontadas do passado. Mas é melancólico, ao mesmo tempo, porque eu também já não sou aquela pessoa, e eu nunca olho para trás. Encontrei você e já não eras mais o mesmo. Quanto tempo se passou, seis meses? E deste então você tomou outro rumo, quase te reconheci. Seu rosto cadavérico e seu olhar assustado contrastam com aquela vida exuberante que você ostentava. Percebi que sua matéria também havia mudado, então você era outro. E é triste quando isso acontece com pessoas tão próximas. Esses dias ela veio aqui em casa, e também exibia esse rosto seco nas bochechas, mas por outros motivos. No caso, não era matéria nova, e sim excesso da antiga. E eu não posso fazer nada. Ela disse meu nome, cansada, e riu com algum esforço lembrando de coisas bobas. O castigo, então, não é exatamente ter que lembrar isso ou aquilo, mas permanecer com partes antigas do nosso corpo que queremos logo nos desfazer. Qual  é aquele velho ditado sobre o tempo, mesmo?

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(para aqueles que se sufocam)

Um, dois, três, quatro, cinco sete, oito dez. Olho na superfície dos seus olhos felinos e afago uma mexa distraída dos teus pelos enquanto você dorme. Faço pequenas experimentações de força para saber se consigo te acordar desse suave transe. Logo, um pequeno sobressalto quando você vira dum lado para o outro, como quem quer me ignorar, mas acho lindo. É um dia particularmente feliz, e fico com uma sensação de preenchimento enquanto vejo seus movimentos instintivos se cobrindo com o lençol branco. Nesse exato momento, então, tenho uma longa epifania sobre como teus movimentos, em outra cultura na outra dimensão, poderiam facilmente ser danças complexas e meticulosas. Há uma cicatriz no seu corpo, longa e oblíqua, e você não gosta que eu mexa nela. Parece que dói, e eu confesso que sinto um pouco da dor em mim também. O rasgo da tua superfície expõe tuas belezas, embora você não acredite. Flores e mais flores são as células internas, e você esconde um pedaço, uma pequena flor rosada que guarda uma intensidade vermelha. Um sol forte entra pela janela e você levanta os braços, solta um gemido preguiçoso. Seu olhar fixo no nada me deixa enfeitiçado pelos próximos passos da dança, e então eu deito no seu peito, você não corresponde, mas também eu nada esperava, é o nosso jogo implícito de desafetos. Com um dedo molhado de mel faço no teu peito um desenho místico naquela cicatriz que abre um portal. Assim como todos os dias, acabo caindo nessa mesma tentação, e não tem problema, porque era pra ser assim mesmo, sendo condenado a assistir tua dança pela eternidade.

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(para aqueles que precisam de alguma coisa)

É sempre com olhares. Festividade combina com poucas pessoas, e eu não sou uma delas. Angústia é uma bela palavra, não? A angústia da angústia fica contida no acento agudo. É o ponto que une toda a palavra, é o que faz dela una. Também a minha própria angústia me unifica. Um nó preciso, delicado e bem apertado. É mais uma daquelas noites onde estou completamente sóbrio, mas as paredes parecem derreter ao meu redor. As pessoas falando na rua tornam-se borrões sinestésicos de sussurros. A luz está cambaleante, e eu sei que é tudo uma ilusão. Quando dou por mim estou diante de um ritual. Um jovem, com olhar fixo no nada, faz o tambor reverberar com força, as dançarinas gritam e intensificam seus passos, um homem mais velho troca olhares com uma moça, algo está no ar. Está suspenso e eu tento capturá-lo com minha mão. Sinto uma pequena pitanga, como que eu não tinha visto? Eu estava há horas olhando a árvore, só para poder desviar o olhar. Está naquela hora da noite onde eu não consigo mais sorrir, não por mau humor, mas porque meus músculos desistiram, eu começo a desistir também. E quando eu faço isso eu retiro os olhos da árvore e vejo você, e você estava olhando para mim, e eu fico apavorado.

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(para aqueles que não desistem)

A crua intensidade do tempo fugidio me obriga a ser independente do que penso que sou. Somos ecos constantes de ditos antigos que reverberam e eclodem no terreno superficial. A pele é a camada mais fina e superficial desse encadeado significativo: a flor da pele é o meu coração. É por isso que somos todo sentimento, não só o coração, mas também o corpo. Ele é esse nó de carne e assobio: resta apenas um buraquinho que onde se sobressai, e é aí que somos nós. Um pequeno nó se encadeia no outro numa trama imprevisível e, quem diria?, sempre romântica. Romântica porque escapa, algo foge. Tem forma de geleia, nunca fica igual, e isso é engraçado, não? Passamos dias, semanas e até anos pensando que somos o que somos, é nesse trabalho diário que advém um tipo de convencimento muito específico, e de certa forma útil, que nos informa que somos seres mais ou menos coerentes, não só intelectualmente, mas também de constância corporal, uma unidade segura de silogismos físicos e metafísicos, porém não é tão clandestino chegar à conclusão que nada disso que é, é. Acho que somos muito mais onda: por isso a olhada pro mar é tão fascinante. Um interminável movimento de quebra e reconstituição que sempre vem de fora, e que de alguma forma permanece igual… é um pensamento reconfortante. Estar sentado numa pedra escura e úmida, tarde da noite, e pensar longamente sobre o nada olhando pras ondas: isso.

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(para aqueles que congelam)*

Você é uma criatura mítica, eu sou o inseto que te devora. Você é o rei-deus, eu sou o escravo morto e esquecido. Você ordena, eu sou esmagado. Eu sabia que cedo ou tarde você voltaria das terras distantes, eu só não estava preparado porque contigo vivo um eterno estado de suspensão. O teu olhar negro atravessou minha carne translúcida e revelou meu coração sôfrego. O tiro certeiro que foi dado, muito embora você não estivesse ciente dos efeitos destruidores, resultou na minha paralisia completa. Eu abria a boca, emitia sons, mas de lá não saía nada. Eu movia o meu braço, mexia as pernas, sem sair do lugar. Desde então estou com um choro guardado na altura do peito. Choro de vergonha e, nota constante, arrependimento. Lamento que eu tenha devotado tanta atenção em você, que você tenha se empoderado tanto, acabei me tornando um secundário na minha própria vida. Eu lamento. De coração, ou do pouco que resta dele. A paralisia é tanta que sequer fui capaz de te escrever, porque este é meu refúgio covarde, quer dizer, costumava ser. Agora estou congelado. E é inverno.

*(mas vai passar, e já estou derretendo)

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morri

bleeding flower quilt (detail) Eu não sei aproveitar a noite como as pessoas normais. Não consigo ter uma noite tranquila sem que eu volte para casa debulhado em lágrimas, escorregando em lembranças, lambanças da vida, confusão resoluta que me descreve bem. Em geral as pessoas tem um costume, até certo ponto louvável, de manter as relações na superficialidade. Não é o meu caso. Sou transparente demais para sustentar tal posição. Acabo dilacerando as entranhas quando tento ser quem não se é. Não tão melhor, se procuro obedecer os deuses da paixão, bem, a sarjeta é quase inquestionável. Na verdade é minha velha conhecida. O que me surpreendeu, hoje, foi que você quis dividir esse espaço comigo. E eu evitei, deus sabe como eu evitei abrir a boca e mostrar o quão errado eu sou, cada vez mais me convenço que deveria estar numa instituição psiquiátrica. Você permaneceu lá, ouviu minhas porcarias e aguentou meu comportamento temperamental. É isso, entenda, que encosta perto do meu coração, que faz vibrar as cordas da minha alma, que remexe essa estátua de amor que carrego comigo. Peço uns instantes de trégua, faço sinal para você se afastar. Você me olha e nós dois temos lágrimas prestes a escorrer. Tudo começa a fazer sentido: estou convencido que hoje, pelo menos por alguns instantes, nosso lugar figurou como um dos mais felizes da terra. Mesmo que tenha sido por alguns segundos! Quem estava em volta percebeu meu brilho, que eu emanava algo de bom, sincero. No meu peito tem uma flor vermelha. Pego minha pele do pescoço e arranco puxando para baixo, deixando meu corpo completamente exposto: essa flor desabrochara. As pétalas se esticaram de dentro pra fora num movimento sincronizado, de tal forma que o interior fica visível aos olhos de todos em volta. Você, que estava ao meu lado até então, fica incrédulo. É muito para você, ainda mais para mim. Daquela flor escorre uma lágrima com cheiro de ferro, é tudo que tenho a oferecer. Estou perdendo as forças e deito no chão acocorado, pedindo por clemência. Mas o que eu quero mesmo é carinho. Uma expectadora desespera-se, grita pedindo por socorro. É tarde, nada mais adianta. Meu destino é, inevitavelmente, agonizar enquanto te vejo partir. Serenamente você decide ir embora, e isso já não faz mais diferença, afinal, estou sentenciado. É questão de tempo até meu coração desistir e a flor murchar. É como um pequeno resumo de tudo que vivi até hoje, é a distância que só faz crescer todas as outras distâncias. São universos intransponíveis. Mas saiba, meu bem, que estou grato pelo prestígio de ter estado ao teu lado, e eu morri, sim: de amores.

(Artista: Anne Clinton)

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“CAPÍTULO XXIV: Por que razão os gentios sustentam que se devem adorar os dons de Deus, como se deuses fossem. ” (Santo Agostinho)

Agrada-me ponderar-lhe as razões. Perguntam: É crível haverem nosso antepassados sido tão néscios que ignorassem tratar-se de dons divinos, não de deuses? Mas, como não ignoravam que tais coisas não se concediam a ninguém, senão por intermédio de algum deus, e não atinavam com o nome desses deuses, impunham aos deuses o nome das coisas que, segundo lhes parecia, lhas davam. Assim inventaram alguns vocábulos, como Belona, tomado de bello, e não bellum; como Cunina, de cunis, e não cuna; como Pomona, de pomis, e não pomum; como Segécia, de segetibus, e não segetem: como Bubona, de bubus, e não bobem. Ou também, sem violentar em nada o vocábulo, com o nome das próprias coisas; assim, à deusa da pecúnia se chamou Pecúnia, mas em absoluto não consideraram deusa a pecúnia; assim, Virtude à que dá a virtude; Honor, ao que dá a honra; Concórdia, à que dá a concórdia; Vitória, à que dá a vitória. De igual maneira, dizem, quando se chama deusa a Felicidade; não se leva em conta a coisa dada, mas o nume que dá a felicidade.

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