céu, orações

(para aqueles que sorriem)

Eu queria te agradecer. Não sei ao certo o motivo, mas é algo que vem de fundo, é honesto. Eu já escrevi em outros momentos sobre estar preso numa areia movediça, onde cada movimento só me faz afundar mais. É nessas horas que a gente percebe, inevitavelmente, que somente algo de fora pode nos puxar. Meus dias agora são preenchidos por um sentimento atordoado, mas que é bom. Eu vivo em suspenso, uma suspensão bonita e leve, erguido por uma força que há tempos eu não experimentava, também me preocupo mais, é verdade, e penso constantemente em você, e sorrio. Canto sozinho, fico imaginando o que você pensaria se eu cantasse pra você, eu tenho vergonha, você sabe, acho até que você sabe muita coisa sobre mim. Tudo é inesperado, é matizado com uma cor de incerteza, é um lugar novo que apresenta uma face dupla: existem momentos enigmáticos onde prefiro ficar em silêncio, e momentos onde sua essência fica evidente num sorriso bobo. Nos primeiros dias contigo eu tentei escrever a nossa história, mas logo o passar do tempo me dissuadiu dessa ideia. Percebi que nosso encaixe não era linear e progressivo; era, na verdade, uma teia de passados e presentes sem lógica. Quando me lembro de você eu lembro dos sorrisos e dos teus olhos fechados. E aí você abre eles, e teu olhar, que antes me assustava, agora revela o melhor de mim, e assim quero ser ao teu lado, te envolver no abraço sem fim, beijar-te esse afeto que escorre, encontrar em você essa coisa perdida que eu nunca tive mas sempre senti falta, sei que você não acredita nisso, mas nossa coisa é um jogo de coisas inacreditáveis, e você me pergunta o que eu acho e eu esquivei da resposta, mas acredito que estamos tentando encontrar formas de estar juntos que satisfaçam a nós, conciliando posições irreconciliáveis e contradições que se desfalecem a cada beijo delirante como sempre são, dia após dia, os testemunhos de loucura que chamo acreditar na felicidade.

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céu, contos e relatos, orações

(para aqueles que fecham um ciclo) ou a sagração do inverno

Ontem foi um exercício de loucura. Um imaginar de realidade, regra das exceções, samba dos estrangeiros. Teve momentos onde eu flutuava, noutros eu estavam com os pés duramente no chão. A vida tem dessas onde a gente se lembra que vive, é como quando não conseguimos respirar pelo nariz, ou sentimos um músculo novo, traçamos uma nova rota sem saber a chegada, caímos sem sentir vergonha. É disso que vive o apaixonado, esse ser insalubre e embargado. E ontem a ideia se tornou real, um chão bateu na cara, eu tropecei no céu. Me lembrou da vez que vi as estrelas pela primeira vez e voei no meio dos flamingos, congelei nos andes e ressuscitei no mar. Minhas roupas rasgaram, os flagelos ficaram expostos e brilhei numa luz negra, mas que ainda é luz. O universo é feito dessa energia, sou uma flutuação microscópica de pequenos fragmentos e, estando ligado a todos os cantos do cosmos, encontrei-me com você num abraço que pareceu durar quatro horas, um beijo que demorou alguns meses, uma marca que ficará por tempo indeterminado. Senti um sabor inédito, reconfigurei-me, chorei aquele caroço engasgado. Quando vi você nas luzes tive a certeza que também queria estar ali, que você buscava algo que eu também procurava, que essa vida é uma loucura que merece as respostas que buscamos. Que seja o templo e o espírito, que seja o universo infinito, que seja o amor resvalando pela rua. Você é um mistério e não sei os teus caminhos, e isso me obriga a inventar novas orações que, respeitosamente, dirijo aos deuses do amor. Num lampejo de graça eles tocaram meu coração. O universo é energia, ela não tem tempo, ela apenas existe, e em algum lugar do cosmos nossos corpos unidos ainda estão impressos nessa trama louca, sem sentido e interminável. Foi numa noite sem vento que eu percebi algo novo e somente uma ventania poderia trazê-lo até mim. Às vezes, então, o que a gente acha que é, é.

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céu, contos e relatos

Balanço

Você vai embora mas continua aqui. Passou sucintamente na minha vida mas deixou mais uma rachadura na minha já frágil fundação. Quando penso na vida imagino sempre uma praia à noite, mergulhada num breu pesado e intolerável, e eu perto do mar com uma pequena lanterna apontando para o horizonte. Consigo ver que o mar acaba, mas não sei o que acontece até lá. Olho em volta e vejo apenas areia, ficando mais uma vez no mesmo lugar. O mar bate em mim onda após onda e acabo percebendo que cada vez fica mais difícil sair. Lentamente vou afundando, acomodo meus membros inferiores na areia depois de já ser tarde demais. Te conhecer foi uma daquelas ocasiões onde achei que poderia me desvencilhar disso tudo. Você iria me guiar. Teve um segundo fugaz em que você pegou minha mão e fez que ia me puxar. Logo depois eu vi, eu sei que estava escuro, mas eu vi a hesitação nos teus olhos. Eu prendo a respiração como se tentasse evitar o inevitável que é assistir a tua partida silenciosa escuridão adentro. Atônito, pergunto aos céus se eles tem a verdade sobre mim. O apaixonante céu estrelado me lembra que eu sou de libra, e nunca entendi qual o significado disso. Vênus brilha no céu como as outras estrelas, ouvi dizer que é o meu planeta regente, eu queria odiar isso tudo mas eu não consigo, o que faço é amar cada vez mais, me apaixonar perdidamente por esses quase-desconhecidos que eu insisto em deixar entrar na minha vida, eu fico tão machucado, você sabe, é uma dor que irradia de dentro pra fora me deixando atordoado e no fim só resta o amor que eu sinto. Eu ainda sou feito de carne e osso, ainda existo. Até a dor eu estou amando agora. Talvez essa seja a sina do libriano, não só a escravidão ao jogo da sedução, a pouca habilidade em tomar decisões e o inoportuno senso de justiça; o fardo do amor excessivo está impresso na minha alma e é uma coisa maravilhosa.

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céu, orações

(para aqueles que se reinventam)

Foi numa noite, numa noite sem vento que eu percebi. O tempo estava congelado, as folhas emudeceram. Nenhum barulho era emitido e ouvi meu coração pulsando, irregular. Pude finalmente dizer o amor, levantá-lo de onde quer que estivesse antes, destampar o túmulo, desterrar a alma. Encontrei figuras gigantes que, sobrepondo-se, fizeram com que me sentisse cada vez mais esmagado. Sendo reduzido ao pó, matéria bruta de existência, a fumaça do meu corpo foi capaz de viajar por outras dimensões onde nossas leis não funcionam mais. Sem referencial ou qualquer coisa para me sustentar, sobrou apenas o amor, que é sincero e é a lei maior. Essa noite, particular entre as outras, essa noite eu vi as estrelas. Naqueles lugares, onde a compreensão humana só é capaz de incompreender, o amor também existe. A primeira rajada de vento acelera o tempo. Sinto essa urgência de dividir o que já não é meu. É teu. Sei nada de ti, apenas carrego na memória o teu olhar. É de uma profundeza bonita que transmite um sentimento misterioso, objeto incognoscível que agora é meu também. Numa noite sem vento uma explosão aconteceu. Dela resultou uma vida nova, um outro espaço-tempo e, quem sabe, uma nova felicidade.

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As leis do universo

Essa coisa sem nome que se mexe dentro de mim como uma lombriga, comendo tudo por dentro, isso que vai desbravando as minhas entranhas e que me deixa oco, o que é isso? É carência do toque, do amor de outros tempos, das promessas quebradas, decepções passadas? Não, não. É algo maior, abre-se o buraco negro e sou engolido de fora para dentro: viro matéria negra de mim. O total oposto do que sou constituído. Frágil cadeia de moléculas, elemento vital de energia que me diferencia de todo o resto; sou por oposição. Eis a solidão maior, resultado de ter sido deixado à deriva no momento em que passei a ser. É se reconhecendo enquanto organismo que passamos a negar tudo que éramos: tudo. Um dia o ser humano se desgrudou da Terra; antes, o Universo se cindiu do Nada, e de um lado estava o Vazio, do outro, Tudo. Nessa pequena tragédia o Nada nunca cessa de surgir, ele nos acompanha a cada estepe e está sempre disposto a nos levar para Seu reino. Como explosões silenciosas todos somos sugados pelo vácuo do desejo que é Lei. Causa e efeito, nos juntamos em torno de um determinado centro gravitacional, força que só existe pela ausência de matéria. Se é assim que Nada surge no universo, também é verdadeiro que da mesma forma ele surge em nós. Ambivalência, dualidade, que seja, e melhor, que não seja. Um dia eu olhei para as estrelas. Elas também não existem: já podem ter sumido. Posso estar imaginando também. Se as percepções nos enganam, então os desejos nos iludem. Eu gritei e disse “Não!”, apontei meu dedo para o céu e, em ato solene, afirmei que existia. Um grito desesperado de quem tenta se diferenciar dos seus semelhantes. Não é novidade que somos todos parte da mesma matéria, mas mesmo a antimatéria também nos habita. Ela preenche o vazio, e assim ele se torna Vazio. Quando me dei conta disso já não tinha mais forças. Os transeuntes, incrédulos, rogavam que eu parasse. Me ajoelhei perante as sombras e rezei. Ainda estava sozinho. Você aparece ao meu lado e sorri, sinto algo. Uma comichão naquele mesmo lugar onde o coração não se propaga mais. Será que estou passando pelo bigue-bangue de novo? Todas as estrelas começam a explodir, em sincronia espantosa… aliás, foi por causa desse fator que devemos a nossa espécie. Cobra, antílope, aranha. Carbono e argônio. Deus, Satanás, Adão e Eva. Eu. E tem uma estrela tão perto que a luz me deixa cego, mas eu seguro a tua mão, quente. Ninguém acredita em mais nada, e apesar da visão escurecida, eu consigo ver que você explode também, desiste de existir, de fora para dentro. Inclino minha cabeça para trás e sequer sou capaz de chorar, pois estava tudo escrito nos Livros Antigos, e a profecia se completa e cá estou, sozinho, sozinho, sozinho, sozinho, sozinho, sozinho…

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Comentário sobre o pretenso encontro entre Vênus e Lua

Essa semana um fato foi noticiado pela mídia de forma repetida e sintomática. Tratava-se do encontro da Lua com Vênus, onde este planeta, do ponto de vista do sul da Terra, acabaria passando por trás do “satélite natural”. Como observador amador das estrelas, fui para a janela e pude ver o fenômeno. A Lua estava lá, Vênus ao seu lado. Fotos foram tiradas, juras de amor entoadas, cânticos bêbados, festas, fantasias… Eu realmente não pude compreender tanta excitação. Lua e Vênus jamais estiveram separados. Querendo ou não, toda a noite é possível vê-los no céu, mesmo que eles lá não estejam de pronto. A dança dos planetas e das estrelas está sempre lá, disponível para nós. O que havia de tão especial em ter a sorte de ser observar um fenômeno tão banal? Ora, é o próprio ato de tornar esse evento particular que faz com que se perca todo o sentido belíssimo e intrínseco do céu. Não é o “satélite” que é “natural”, tenhamos mais respeito. É a Lua. Vênus não “passa por trás”, ele está sempre se transladando, assim como a Lua, assim como nós. Note-se que foram apenas algumas pessoas que puderam ver esse dito “fenômeno”. Se chegamos nesse ponto onde precisamos de uma mera coincidência visual (uma ficção de ótica, eu diria) para nos ausentar de nós mesmos e observar o céu, eu diria então que somos sequer capazes de ver qualquer beleza naquele movimento. As estrelas e os pedaços de rocha flutuantes são acontecimentos tão complexos, belos e misteriosos que é impossível não se desconcertar. Aí criamos circularidades, eventos, calendários, fenômenos, fases, eventualidades e tudo o mais que pode ser pensado justamente para que se evite olhar para cima de forma crua, despida, ou melhor ainda, destemida. Não se trata de tentar enxergar um outro tipo de beleza, assim só estaríamos errando de novo. É mais deixar-se arrebatar pelo breu misterioso e grotesco, espaço eterno de criação e lembrança.

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céu, contos e relatos

É procurando uma coisa que se acha outra

Um certo dia, já totalmente desesperançoso e afundado nas minhas próprias pirações, eu era, possivelmente, a pessoa mais sozinha do mundo. Pera lá: os que terão a paciência de ler esse relato certamente farão objeções, vão trazer suas próprias experiências, seus desgostos, seus desamores. Não é que eu não esteja interessado em saber, tenho certeza que foram experiências horríveis, é que simplesmente não se trata de uma competição. Aquele dia, esse que em instantes vou começar a narrar, eu tive meus 15 minutos de fama. E eu fielmente acredito que sim, naquele momento, eu era a pessoa mais sozinha do mundo. Eu estava no Peru, em algum lugar perto de uma cidade cujo nome não lembro. Tratava-se de uma trilha, um passeio, que seja, descendo um vale conhecido por ser extremamente profundo. Se despindo de metáforas obvias, eu estava indo buraco abaixo. Depois de um dia cansativo de pura descida minhas pernas simplesmente não aguentavam mais. Pedi penico e falei que não queria seguir viagem, postura que deixou meus companheiros irritados e que, conscientemente, me afastou ainda mais. Eles foram, eu fiquei. Lentamente comecei a me dar conta que eu estava num país estranho, em um vilarejo que tinha luz elétrica até às onze horas apenas, que tinha apenas água fria, que eu não conhecia ninguém lá, que eu mal sabia como voltar. Fui jantar, sendo que quase perdi o horário, e eu estava tão humilhado e servil que fiz questão de puxar conversa com alguns estrangeiros. Se não estou enganado, eram espanhóis. Gente simpática, talvez simpatia com alguém claramente patético naquele contexto. Pathos. Eles não sabem, mas salvaram a minha vida. Meio sem sono, fui dormir numa cabana. Tinha espaço apenas para uma cama de casal e uma janelinha com velas e fósforos. Sentei, tirei meu tênis, e comecei a chorar copiosamente. Mesmo com a vista prejudicada pelas lágrimas, vi que a luz cessara. Agora estava eu, sozinho, perdido, um nada. Pela primeira vez na minha vida adulta eu senti saudade dos meus pais e da minha casa, fato que me envergonha até hoje e que dá conta do meu desespero. Meus amigos eram só desprezo, só os meus pais me esperavam no Brasil, não por nenhum motivo especial, simplesmente porque eram meus pais. Dormi alguns minutos e acordei, com sede de tanto chorar. Agora meu objetivo era tentar achar alguma fonte de água. Saí da cabana, e aí eu vi. Era de noite já, só que não estava escuro. Olhei para o céu e vi. Era a Via Láctea e todas as estrelas que os olhos podem enxergar, e aquilo foi tão bonito, honesto e natural que não pude deixar de sentir uma alegria despudorada, quase infantil. Encontrei água (era, ao mesmo tempo, a fonte para todos e também um chuveiro), e enquanto dava um gole olhava para cima contemplando mais uma vez. A cabana agora não parecia um lugar tão ruim. No outro dia, como se tivesse sido uma noite de bebedeira, acordei e mal lembrava desses detalhes. Eles só foram voltando para mim aos poucos, e é assim que a gente vai se encontrando nesse universo hostil, nesse planetinha azul que é, por sinal, o mundo mais sozinho do universo: aos poucos.

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